domingo, 5 de agosto de 2012

GRANDES PRESENTES DE DEUS (O NORTE FLUMINENSE- 13/07/2012)


GRANDES PRESENTES DE DEUS
                                                                              Vera Maria Viana Borges
          Apreciar cada momento, como o bom conhecedor de vinhos aprecia um cálice de raro néctar, dando sentido amplo à existência em todas as suas etapas é fundamental, pois a vida é para ser vivida em plenitude.
            Após anos de trabalho, a maioria das pessoas sonha com a possibilidade de um tempo livre para se dedicar a si e à sua família. A aproximação da aposentadoria provoca uma grande expectativa. Chegando  o momento desejado, a euforia costuma acabar e muitos não se organizam no tempo e no espaço. Os dias ficam vazios. Para maior qualidade de vida é importante ter projetos para que possa desfrutar com inteligência a ocasião da conquista de todo o esforço ao longo da vida. Fazer esporte, ler, caminhar é muito bom para o idoso, mas é muito pouco para ocupar todo o seu dia. Mesmo enfrentando mares encapelados é imperioso impedir que as vicissitudes, os reveses, os infortúnios possam recobrir a poesia que nos encanta, a esperança eterna que nos incentiva e anima. Nada poderá eliminar o mistério das coisas e dos nossos sentimentos. Idade serena, idade de perfeito equilíbrio de nossas faculdades, idade suprema, onde se pode doar afinal toda a medida do nosso ser. É o momento de nos entregarmos às tarefas a que nos destinou a Providência Divina.
          O tempo não perdoa. Sentimos sua passagem visível e irremediável sobre nossas faces e sobre nossas almas. Rugas e cabelos brancos colocados sobre nossos traços de outrora, mas continuamos o que são nossas obras e nossos frutos. Somos pais, avós, homens e mulheres de ação.
          A cada dia que passa, novas tecnologias atingem cada vez mais cedo os nossos pequenos. A modernidade faz com que sejam esquecidos pontos e pessoas fundamentais na transmissão de conhecimentos e valores. O aumento da média de vida está levando à descoberta dos avós e sua preciosa função na sociedade.
          A ideia de avó muitas vezes esteve ligada a uma figura antiga, cadeiruda, mulher madura e corpulenta com 40 ou 50 anos que apesar desta idade, parecia uma anciã, usando xale, sentada em uma cadeira de balanço, envolvida com novelos, bordados, tricô e crochê, após o preparo das mais finas iguarias, deliciosas guloseimas que alimentavam a família. A avó moderna, está “antenada”, usa aparelhos eletrônicos, celulares, navega sem dificuldades pela Internet, interage nas Redes Sociais, frequenta Academias de Ginástica, faz Pilates, pratica esportes, lê, escreve, compõe, também costura, faz tricô e crochê e mesmo com a vida dinâmica por natureza, organiza-se em função de uma contínua transformação. Não se discute se o passado é melhor que o presente, nem este que aquele. Os valores morais são inalteráveis, constantes e imutáveis.
          Enquanto os pais estão inseridos no mercado de trabalho, em busca da digna sobrevivência, a  avó dedica-se a um empenho sério, exigente e extremamente positivo, tanto para os netos, como para os seus pais e no fundo, principalmente para si própria. Ela sai ganhando, porque isso a obriga a sair de seus mundos nostálgicos para contar histórias, participar, estar disponível, passear, cansar-se vivendo por eles. Os pais são os principais, os primeiros responsáveis pela educação dos próprios filhos mas a contribuição dos avós pode ser extremamente eficaz e importante. Acompanhá-los aos parques, às praças, estar atentos àquilo que veem na TV, programando o uso da mesma com seriedade e prudência e monitorando o uso do Computador, são funções que escondem riquezas imensuráveis. Orientações que são passadas sem pressa e sem medo por quem já percorreu o caminho e que com sabedoria são generosamente transmitidas para que seus descendentes se tornem pessoas íntegras e felizes. Os mais velhos transformam assim sua atual disponibilidade de tempo numa autêntica ação educativa. Uma educação com liberdade e limites em prol do ideal da paz, a PAZ que CRISTO trouxe aos homens, do ideal do dever cumprido, da fé , da esperança e do amor frutuoso que promove a paz, a harmonia e o amor, preciosidades para as famílias e para o mundo. Avós são pais duas vezes, isto nos traz o CÉU ao chão. Amor gratuito, nada se exige em troca, apenas um sorriso nos leva ao Paraíso.
          A natureza é sábia, nos premia com os netos que dão prosseguimento ao ciclo da vida e vêm nos lembrar todas as possibilidades de recomeço, vêm renovar trazendo luz e sonhos, enchendo de júbilo as nossas vidas. A chegada deles é bálsamo que tem a capacidade de perfumar e curar, incentiva à esperança e alegria transformando em tranquilidade e PAZ o nosso viver.  Grandes presentes de DEUS.
          “Grandes coisas fez o SENHOR para nós, por isso estamos alegres”.

NOSSA LÍNGUA, NOSSO PATRIMÔNIO (O NORTE FLUMINENSE-13/06/2012)



NOSSA LÍNGUA, NOSSO PATRIMÔNIO
                                                                                      Vera Maria Viana Borges
“Última flor do Lácio inculta e bela!” Olavo Brás dos Guimarães Bilac refere-se ao fato da Língua Portuguesa ter sido a última língua neolatina formada a partir do latim vulgar, falado pelos soldados da região italiana do Lácio.
A língua é um código, um sistema de sinais de que serve o homem para a comunicação falada ou escrita. É um fenômeno social da mais alta importância, é o veículo do conhecimento humano e a base do patrimônio cultural de um povo. A linguagem coloquial é espontânea, usada sem preocupações com formas linguísticas. É a fala cotidiana, que comete pequenos, mas perdoáveis, deslizes gramaticais. A vulgar é própria das pessoas sem instrução, livre de convenções sociais, infringe totalmente as convenções gramaticais. A língua culta compreende a língua literária, empregada na literatura e constitui o espelho de todas as normas da nossa gramática.
A língua consegue ser ao mesmo tempo de todos e de cada um de nós. Há pessoas que moram nas cidades, outras moram no campo. Há os que trabalham em indústrias, em lojas, em escritórios. Há músicos, poetas, jogadores de futebol, estudantes, empresários, metalúrgicos, engraxates, professores, médicos, advogados, químicos, programadores de computador... Cada grupo de profissionais desenvolve uma língua própria cheia de palavras e expressões técnicas que muitas vezes não são compreendidas por quem não participa desses grupos. Contamos ainda com os “regionalismos”, um patrimônio vocabular próprio e típico de cada região, e mais a invasão e incorporação de termos estrangeiros, sobretudo a crescente e indiscriminada utilização dos mesmos no âmbito profissional. Muitas vezes para entendê-los precisamos de dicionários de vários idiomas a tiracolo. Fazendo reserva em Hotel, para o que é necessário enviar “comprovante de depósito”, a atendente poderá lhe dizer: enviaremos o seu “voucher”. O que é? O “voucher”. Voucher? Sim, voucher! Não seria mais fácil usar os termos que temos, como “comprovante ou recibo”? O inglês invadiu salões de beleza, restaurantes, a mídia, lugares de compras, propagandas, nomes de grifes nacionais, etc. Não entendo o uso de palavras inglesas quando elas existem na língua portuguesa. O indivíduo que não sabe inglês terá dificuldades quando deparar com - delivery, free, off, play, outdoor, coffee break, beauty hair... 
E, aí, brother, beleza? Será o Benedito? Caramba! Viajei na maionese! Meu Deus, que idioma é este? Loucura! Ó Céus! É gíria, estrangeirismo, gerundismo, modismo. Antigamente falava-se “mentira”, hoje é “caô”. Gafe virou mico. Algumas gírias são iguais em todo lugar, outras não. Gíria, jargão, modismo, o certo é que a maioria dessa enxurrada de palavras acaba na lata de lixo. Mas, há o que permanece, importante fonte de renovação da língua e mesmo tendo origem popular, chega um tempo em que ninguém se lembra mais de onde a palavra veio. A língua é viva, dinâmica e cada grupo cria sua linguagem própria, gerando o economês, o baianês, o internetês ou miguxês, e por aí vai... Gírias são sempre usadas em qualquer idade, o engraçado é que de tanto ouví-las acabamos por repetir e às vezes me pego falando coisas que ficam ridículas saindo de minha boca. Na BABEL contemporânea das linguagens de grupos, entre gírias e jargões, vale a lei do “Salve-se quem souber!” Difícil entender a forma esdrúxula usada pelos internautas: “naum eskreva feitu retardadu na net pq tem jenti lendu o q vc escrevi.” Torna-se necessário conscientizar os jovens para que entendam que ficarão prejudicados tanto na fase escolar como no futuro em suas profissões. O maior temor é que esse disparate venha deturpar ou deturpe a nossa língua compreendida pelo senso comum como pura, ideal e única.
O “Português” está sendo fruto de uma “desnacionalização linguística”. Impôs-se um “Acordo Ortográfico”, já em vigor, onde se pretende fazer acertos no “Vocabulário Ortográfico Comum” aos países que confirmaram tal acordo, sendo que Angola e Moçambique ainda não aderiram. Assim está sendo o nascedouro de um “Português” inventado,  que se abdica de características regionais, perdendo a ligação à raiz que lhe deu a vida, privado de identidade própria. Coragem estudantes, professores e interessados pela linguística. Lutemos, com a certeza que o estilo da mediocridade não chega a lugar algum. Somente o Saber de Qualidade, fruto do Labor Intelectual abrirá as portas para o aperfeiçoamento, para salvaguardar uma das preciosidades mais requintadas, herança valiosa de um povo, que é a sua língua. Cuidemos bem da NOSSA, da nossa tão aviltada, vilipendiada  e maltratada,  ao mesmo tempo tão querida e amada  Língua Portuguesa! Por mais longa que seja a caminhada ela será iniciada com o primeiro passo.

quinta-feira, 17 de maio de 2012

NÃO BASTA QUERER - Publicado no Jornal O NORTE FLUMINENSE - nº 2253 - 12 de maio de 2012

                 NÃO BASTA QUERER                                                             
                                                                                           Vera Maria Viana Borges
             Tem certos dias que nos pegamos a pensar no que já se foi. É a saudade, são as lembranças e a angústia de amados familiares e amigos, já à direita do Deus Pai Todo-Poderoso, ou mesmo a compensadora satisfação de um passado venturoso, na construção de uma bela história, cheia de magia e prazeres. As reminiscências afloram, o que é muito natural, pois no caminho percorrido registramos  todos os acontecimentos que formam a nossa saga. É mesmo normal sentir uma saudade gostosa, saudável e até mesmo dizer - “Recordar é Viver”,  não podemos permitir é que esta saudade doa uma dor tão doída, que não tenha cura, às vezes chegando a ser tão mórbida que costumamos ouvir: “éramos felizes e não sabíamos”. Arte complexa a de viver!
              A História deve ser valorizada sempre, “um povo sem história é um povo sem memória”, contudo no cotidiano temos que buscar coisas novas sem deixar que nos prendamos às coisas velhas, ao que passou,   ao rudimentar, ao obsoleto. Cumpre-se seguir os rumos da modernidade sem se perder, claro, os valores cristãos, morais, culturais, intelectuais, políticos e filosóficos, vivendo o aqui e agora, neste mundo moderno, globalizado, dando prosseguimento à trajetória, caminhantes que somos em busca do futuro. Estamos em permanente construção. Cada dia é uma fase, um estágio de crescimento, aprendizado e amadurecimento. Ampliando nosso olhar vislumbramos um mundo novo que nos concita a novos desafios a cada instante. É essencial que vivamos intensamente o PRESENTE. O futuro a Deus pertence, vivamos então entusiasticamente o dia de hoje, como se ele fosse o último. Viver do passado é fugir da realidade. É algo irreal. É estar preso a um tempo que já não existe, é estar alienado. É óbvio que o que buscamos é a liberdade, a condição almejada para vivermos a vida em sua grandeza, em sua plenitude. Só o PRESENTE é real.
              O elixir da vida está em cultivar o Belo, o Bem e o Bom e encontrar caminhos novos. Somos os mesmos, apenas com maior bagagem, o ancião tem um fecundo dossiê. Com o aumento da expectativa de vida, um número cada vez maior de pessoas tem a chance, a oportunidade de testemunhar com mais maturidade os autênticos valores humanos. Só se é possível tornar plenos estes valores através da Providência Divina e da Ciência que  proporcionam melhores condições para se viver bem.
              A maturidade é o ápice, o apogeu, o auge, a plenitude do homem. É o alvorecer da Sabedoria. Com o passar dos lustros adquire-se mais Sabedoria. Só se envelhece quando se perde o interesse, quando se deixa de sonhar, de amar, de procurar novos conhecimentos e algo novo a conquistar. A mente tem que estar aberta a novas ideias, a novos interesses, inspiração de novas verdades, preservando a força jovial, contribuindo para a beleza e harmonia na distribuição de sabedoria e talento.
              Cora Coralina estreou na literatura aos 76 anos de idade e fez da vida e da morte uma poesia: “Não morre aquele/ Que deixou na terra/ A melodia de seu cântico/ Na música de seus versos”.
  Benjamim Franklin foi mais útil ao seu país, após os sessenta anos. Diplomata, escritor, jornalista, editor, cientista,  inventor, enxadrista norte-americano e descobridor dos para-raios. Depois dos oitenta anos, Verdi escreveu óperas. Compositor italiano, autor de “A Traviata”, “Rigoletto”, “Aída”, “A Força do Destino”, etc. Ticiano, pintor italiano, pintou seu incomparável quadro “Batalha de Lepanto” aos noventa e oito anos e sua “Última Ceia” aos noventa e nove. Monet  pintou grandes obras de arte depois dos oitenta e cinco. Michelangelo, escultor, pintor, arquiteto e poeta italiano, ainda esculpia suas obras-primas aos oitenta e nove anos, em1564, ano de sua morte. Kant escreveu algumas de suas maiores obras filosóficas depois dos setenta anos. Goethe escreveu a segunda parte de “Fausto” após os oitenta e Victor Hugo ainda encantava o mundo com seus escritos depois dos seus oitenta anos.
              O famoso arquiteto brasileiro, Oscar Niemeyer, comemorou em dezembro de 2011 os seus 104 anos, com novos projetos, desafiando qualquer regra de longevidade.
              Parar de trabalhar é começar a morrer. A morte caracteriza-se pela inação e a vida pela ação. O trabalho nos ocupa e revigora. Aposentar não significa tornar-se inútil, a vida continua, certamente mais intensa e sobretudo mais plena de liberdade para se trabalhar em algo útil, com propósito digno, para o próprio bem, para o bem da família, para o crescimento da comunidade e para o desenvolvimento do Estado e da PÁTRIA.
              “Que o beneplácito do Senhor, nosso Deus, repouse sobre nós. Favorecei as obras de nossas mãos. Sim, fazei prosperar o trabalho de nossas mãos”. Salmo 89:17
              Possamos, com a graça de Deus, estar atentos e produzindo até o último segundo de nossas vidas, seguindo a máxima de Goethe: “Não basta saber, é preciso aplicar; não basta querer, é preciso fazer!
  

sábado, 12 de maio de 2012

segunda-feira, 16 de abril de 2012

UM NOVO CICLO - Publicado no jornal O NORTE FLUMINENSE nº 2252 - 12 de abril de 2012

                                        UM NOVO CICLO      
                                                                       
                                                                            Vera Maria Viana Borges
            
             As chuvas de março fecharam o verão e inauguraram o outono. É o início de um novo ciclo, período em que a natureza se renova. Um dia desses, comendo bolinho de chuva que tem delicioso sabor de infância, adentramos no Portal das Fantasias e no mundo do faz de conta que extasiam crianças onde muitos adultos pedem carona. Revivemos assim muitos flashes com sabores, aromas, fragrâncias, cores, ideias, texturas que outrora conhecemos, tantas coisas que vivemos e que se esconderam na memória. Fomos penetrando no túnel do tempo seguindo em busca do tempo perdido, aquele que não tem volta.Se pensarmos nos sabores que fizeram parte da nossa infância, a lista será longa. Como num filme fomos recordando tantos episódios e nos perdemos naquele aconchego gostoso, saudoso, lindo, poético e humano. O importante destas lembranças não está somente no fato propriamente, mas na história contada em torno da mesa, do afeto que está impregnado naquela recordação.
            Aterrissamos em Rosal, terra de muitas flores, muitos encantos e muitos mistérios.
             Monsenhor, dália, lírio, orquídeas que  fazem  lembrar a casa de Pequena e  José Rosa, copos- de- leite, extremosa, buganvília, beijo, suspiro, brinco-de-princesa, rosa, rosa graúda, exageradamente bela; gérberas que lembram o jardim de Bibi e Fluminense Alt, tão perfumadas e delicadas quanto a delicadeza, pureza, meiguice e simplicidade do casal.
             Terra de tantas histórias, de misteriosos cavaleiros que troteavam e disparavam atravessando as ruas desertas na calada da noite e de uma mulher tão alta, tão alta... que percorria a vila em altas horas e que  do coreto, ao lado da Igreja de Santana, com um passo apenas chegava ao cemitério. Tínhamos tanto medo! Da “Luz do Monte Azul”, que clareava a noite escura, tornando-a tão clara como o dia, iluminando tudo em derredor. Da dita luz, uns diziam ser a “mãe do ouro”, decorrente do mineral supostamente existente no subsolo, outros, uma alma benfazeja que sempre aparecia em momentos difíceis para ajudar a alguém que necessitasse. Cavaleiros indo buscar remédios para doentes graves e maridos que buscavam parteiras eram iluminados e guiados por aquelas serras do Monte Azul, denominação devida aos fenômenos da tal luz que era muito intensa e azulada e em escuras noites, muitas vezes chuvosas e até mesmo sob verdadeiras tormentas prestava auxílio  com seu intenso brilho.
             Àquela época era costume matar porco em casa e fazer quitanda, nome usado para designar diversas gulodices da culinária doméstica. Sempre que se fazia algo, eram oferecidos “pratinhos” para os amigos mais chegados.
             O dia em que matava porco era uma festa. Cedinho já chegava alguém para ajudar; um mais corajoso para furar o “bichinho” que gritava anunciando para toda a vizinhança a sua “execução”. Após destrincharem, antes da preparação para que a carne e a gordura fossem para as grandes latas, na despensa (compartimento da casa onde se guardam mantimentos), as crianças iam distribuir  em tigelas (quase sempre de ágate) algumas porções, verdadeiras lições de “partilha” ali ao vivo, pela vizinhança.
             À noite, cadeiras nas calçadas onde famílias se juntavam conversando animadamente enquanto a gurizada se divertia pulando corda, brincando de roda. Os aniversários... Amistosamente vivia aquela gente que se confraternizava nas alegrias e  era  solidária  nos  infortúnios, nos  momentos   de dificuldades, tristes e difíceis.
             As jabuticabeiras, com os troncos pretos de graúdos frutos, muito doces, de agradabilíssimo sabor, ricos em tanino, eram ponto de encontro em quase todos os quintais, em afáveis reuniões de amigos sob suas aprazíveis sombras.
             No tempo das goiabas, o aroma das goiabadas tomava conta do lugar.
             O cheiro do “óleo de peroba” nos móveis, o assoalho lavado aos sábados, também eram característicos... Casas enceradas, escovão pra lá e pra cá... Piqueniques memoráveis,  as alvoradas da Lira 14 de Julho, as melodiosas serenatas, o Caxambu e as fogueiras do Sr. Levino Soares onde cantavam e dançavam o Tão Ananias, Miracema e Antônia Paula: “Quem nunca viu vem vê, cardeirão sem fundo frevê...”
             No mês de maio, as coroações de Nossa Senhora, perfumadas pelas trescalantes brisas do “monsenhor despetalado” que jogávamos na “Santinha”. Vestidos de cetim, de anjo com asas cheias de graciosas penas; vestidos de Virgem... Muito frio!... Após a ladainha  sensacionais leilões! O coreto todo decorado, cheio de deliciosas prendas. Todo o povo à sua volta. Cada noite dedicada a uma família que se esmerava na confecção das prendas que eram arrematadas por altos preços, estimulados pelos apregoadores que iam induzindo, em sadia brincadeira a competitividade entre os presentes que num clima de total descontração contribuíam para os cofres da Igreja de Santana.
           O Rosal Esporte Clube, vasto acervo de craques que lhe enalteciam as cores esportivas: vermelho e branco que tremulavam em bandeiras agitadas por animadas torcidas. Nos bailes da Rainha do Rosal Esporte Clube, as mais encantadoras valsas, quase sempre duas ou mais, “Danúbio Azul”, “Vozes da Primavera”, “Contos dos  Bosques de Viena”, fazendo com que  rainhas, princesas e seus pares rodopiassem em belos e diáfanos trajes pelo salão.
           O alto-falante do Sr. Chiquinho Nunes, no Cine Rosal sensacionais seriados, Durango Kid, Zorro, O Gordo e o Magro, Os Três Patetas. A Escola Luiz Tito de Almeida, as aulas de ginástica com o Sr. Hildebrando, os parques, touradas e circos que vez ou outra enchiam de alegria a petizada.
           Falando em circo regressamos ao tempo real. Os espetáculos ainda atraem enorme público de todas as idades. Na TV ou sob a lona, o mundo da magia incorpora linguagens modernas e tenta manter a tradição do reino da marmelada, numa era de velozes mudanças. Sempre um novo ciclo, onde tudo se renova.

 

segunda-feira, 9 de abril de 2012

A RESSURREIÇÃO

O BAIRRO QUE FOI NOVO (O NORTE FLUMINENSE-14/03/2012)

                    O BAIRRO QUE FOI NOVO                                                     
                                                                      Vera Maria Viana Borges

                    Trajeto muito percorrido em minha infância, foi a Estrada Rosal - Bom Jesus. Lá da santa terrinha, descíamos para vir ao dentista, ao médico, por vezes ao cinema e mesmo para assistir aos espetáculos circenses no ALTO DE SANTA RITA, com os famosos "Globos da Morte". Grandes Companhias!...
                  Para a criança vinda do distrito, aqui tudo era maiúsculo... A Avenida Padre Mello era grandiosa, a casa do Padre, um monumento, que hoje sinto deveria ter sido tombado, preservado, para a história da nossa adorada Bom Jesus... A Igreja Matriz, arquitetônica!...
                  Vim prestar o "Exame de Admissão ao Ginásio". Tendo sido aprovada, mudamo-nos para cá em 1955.
                 Descendo a  Rua Dr. Abreu Lima, que nasce na Praça Governador Portela, caminhávamos em paralelepípedos. A rua já era calçada até a entrada da Avenida Padre Mello (que também tinha calçamento). Daí para frente era barro vermelho. Imponente na esquina avistava-se o Armazém de Café do Sr. Karim João, onde nos fundos residia Orlando Alves de Oliveira, motorista, figura popular, amiga de todos. A seguir, bem edificada, a residência do Sr. Alípio Garcia, o então proprietário do Cartório do 2º Ofício de nossa cidade. Após, havia uma casinha bem simples, com cerca de arame farpado, que abrigava o Sr. Armindo Carroceiro. Finalmente, afastada do alinhamento, a "Fábrica de Balas" do Sr. Ésio Bastos... aquelas balas branquinhas, tão docinhas, com listrinhas coloridas... doces lembranças!...
                Aí estava delimitado o perímetro urbano, pelo Valão Soledade que se atravessava em ponte de madeira.
                Daí para frente era macega, e um novo loteamento, onde já eram edificadas as primeiras residências.
                O "Departamento do Café", a residência do Gerente do IBC e o casarão de alpendre do Sr. Elias Ferreira,  já se incorporavam ao cenário.
                Lembro-me bem do Matadouro Municipal, construído onde é hoje o DER e inaugurado a 13 de agosto de 1952,  e,  do funcionário eficiente, vindo de Itaperuna, o nosso estimado amigo José Camilo.
                Uma construção aqui, outra ali, surgia o Bairro Novo...
                Onde está o "Abrigo dos Velhos"  era o local em que se depositava o lixo de Bom Jesus.
                Construiu-se o prédio da Delegacia na beira-valão, e em seguida fez-se a ponte de cimento. Alair Ferreira Tatagiba trouxe o Posto de Gasolina.
                O Sr. Quinca (Laurindo Henrique), Antônio Trindade e Sinfronino Braga  foram os pioneiros da Rua Joaquim Ferreira Ramos.
               Chichico das Areias empreitou duas obras para  residências de Irma e Vera Ribeiro, respectivamente. Construía-se com tijolos de cimento da fábrica do Prefeito Gautier Figueiredo.
               Depois vieram Sr. Marcílio, Bolivar Teixeira Borges, Antônio dos Santos, Cerizê (costureira afamada), Dr. Pery, e, até mesmo  o Desembargador Sampaio Peres, construiu e residiu no novel bairro.
                Nos terrenos vagos, os garotos improvisavam campinhos para as peladas, nas horas de lazer...
               Pelas novas ruas, desfilavam de bicicleta, meninas casadoiras... Conta-se de um romance que terminou em casamento, acreditando-se que o feliz casal, reside no referido bairro, atualmente.
              Onde é hoje o "POSTO GUERRA", acampavam ciganos, e frequentemente, armavam-se circos e touradas.
              Inúmeras oficinas de lanternagem e mecânica se instalaram na região. A do Chico da Lata, a do Sebastião Godói, a do Canico, a do Polaca.
              Juca Moraes, músico da Banda, tinha um botequim, onde engarrafava vinho tinto, fabricado por ele próprio,  mais tarde surge ali o Depósito de Bebidas do Jovair.
             Na Rua Vereador João Rodrigues do Carmo, conhecemos o Ari, Inspetor de Trânsito, o Clemiltom, o Luís da Água, Antônio Martins de Souza e Catarina, o Candico, o Emídeo, fiscal da Prefeitura. Na referida rua ficava o Armazém de Café do Higino Belloti.
              As famílias abasteciam suas despensas, na vendinha do José Mangefeste.               
             Onde já foi o "Bamerindus", e posteriormente a "Constrular", o empresário Pedro Braga, proprietário da grandiosa "BRAGA MÓVEIS", inicia sua vida profissional, com um simples barracão de marcenaria. O não menos bem sucedido Passaline, também cresceu com o Bairro.
            Chega o asfalto em 1960, trazendo maior progresso à nossa terra.                
            Extrapolou, nosso bairro virou centro da cidade. A zona urbana fora esticada e no final da década de 60, o Matadouro foi transferido para a beira-rio de um novo bairro, o Lia Márcia que também se desenvolveu e estava ele novamente plantado no perímetro urbano...  Atualmente, o gado é  abatido em Frigoríficos...