terça-feira, 4 de agosto de 2015

MEMÓRIAS DE UM EX-COMBATENTE (Publicado no Jornal "O NORTE FLUMINENSE - 24 de julho de 2015)

MEMÓRIAS DE UM EX-COMBATENTE
                                                                                             Vera Maria Viana Borges
               
                            Na Europa ocorria a maior conflagração da História da Humanidade. Iniciou-se com a invasão da Polônia pela Alemanha hitlerista a 1º de setembro de 1939, prosseguindo na Europa até a capitulação alemã a 7 de maio de 1945 e na Ásia até a rendição do Japão a 2 de setembro de 1945. Da coligação aliada contra a Alemanha, a Itália e o Japão, participaram a França, URSS, EUA, o Reino Unido e outros países, entre eles o Brasil.
                      No Brasil, a reação contra o nazismo, iniciou-se em 1942,  embora limitando-se apenas aos meios intelectuais.  Entre janeiro e maio de 1944, soldados convocados, eram preparados e em julho partia o primeiro escalão, que chegou a Nápoles no mesmo mês. A guerra deixou de ser algo distante para o povo brasileiro. Lenta e insidiosamente chegou às costas do Brasil, destruindo vidas de pacíficos homens de trabalho que nada tinham com a guerra. O Brasil enfrenta a agressão! Dolorosas as despedidas! Famílias dizimadas pela dor, corações que sangravam, gemidos de dor que dilacerava o peito, choros, lágrimas, desespero... Lenços se acenavam em despedida... Familiares, namoradas, vizinhos, amigos, colados aos rádios, na ânsia daqueles terríveis comunicados... Foram com eles a paz de muitos corações, dos pais e irmãos que aqui ficaram em total desolação.
                  De Bom Jesus partiram - Altayr Fraga Campos, Álvaro Borges Barbosa, Boaventura Pedrosa, Cândido Diniz  (Rosal), Clito Soares Barroso, Isaac de Souza (Carabuçu), João Avelino dos Santos, João Soares Pimentel, José Basílio da Silva, Jorge Jabor, Luís Capácia (Rosal), Moacir R. do Carmo, Manoel Zanon, Nestor Queirós, Nilo Escudino, Paulo Moreira, Paulo “Capitulino” Terra, Ricardo Vieira Chaves e Romil Laurindo Neto, bravos soldados, lutadores pela liberdade mundial.
                  Nilo Escudino estava no Exército e não obteve baixa devido às críticas circunstâncias que envolviam o mundo. Todo o contingente ficara de prontidão nos quartéis aguardando os acontecimentos e quando o Brasil decidiu entrar na guerra, já havia  três anos que ele e muitos companheiros estavam lá e ainda ficaram mais 1 ano, 1 mês e vinte dias... Pediram para vir despedir das famílias. Foram concedidos três dias: um para vir, outro para ficar e o terceiro dia para voltar. Alguns não retornaram, foram muitos os desertores. Era frequente ouvir dizer na época: “Ou mato, ou morro”, não nos campos de batalha naturalmente, mas referindo-se a esconderijos em matas e morros... Muitos fugiam dos próprios quartéis, durante a noite. Apelidaram o lugar das fugas, por onde saíam, de “Capitão Pula”.
                   No dia do embarque, o segundo escalão saiu da Vila Militar, em Deodoro, em direção ao Cais do Porto, de trem, em  comboio fechado para que não fossem vistos pelos “Quinta Colunas”, que comunicavam aos inimigos tudo o que se passava. Para entrar no navio foram escoltados por soldados armados de metralhadoras, que formavam um corredor. Permaneceram ancorados por três dias, aguardando ordens. Para o cerimonial de despedidas, esteve presente o Presidente Getúlio Vargas, que assim iniciou o seu pronunciamento: -Brasileiros! Deus vos acompanhe...
                   O navio seguiu escoltado por dois “destróieres”, um de cada lado, um “porta-aviões”, um “submarino”, um “encouraçado” que abria o caminho e  mais navios de pequeno porte. Foram perseguidos por submarino  e ficaram de prontidão aguardando para se atirarem  com botes salva-vidas ao mar, caso o navio fosse torpedeado. Bombas de profundidade foram usadas em defesa deste ataque; tambores eram rolados em rampa nos convés, explodindo a quinhentos metros do navio que fazia  média de 60 milhas por hora. Tremia tudo! Parecia maremoto... Só se via céu e água. Quinze dias e quinze noites de angústia, medo, pavor e tormento. A comida era americana, enlatada, por sinal muito boa. Do Brasil, só banana e laranja.  Às dezoito horas, fechavam o convés e muitos dispensavam o jantar, procurando locais mais frescos, próximos às geladeiras, pois o calor era de matar, chegando a mais de cinquenta graus. Morreram oito na viagem e muitos desceram em padiolas, com pneumonia e outros problemas. Os que morriam, recebiam as honras militares: cantava-se o Hino Nacional, o Coronel homenageava com um discurso e o corpo envolto na Bandeira Nacional era lançado ao mar, por uma rampa, em caixão de tela. 
                    Éber Travassos, de Itaperuna, ficou muito mal durante a viagem, com um furúnculo no peito do pé. Ele era  muito gordo e o calor muito intenso. Com muita febre, insistentemente pedia ao Nilo Escudino que se ele morresse, contasse à sua família o que lhe acontecera. O Nilo, vendo-o realmente numa pior, resolve encorajá-lo: - Realmente acho que você deverá morrer, mas se isto não lhe acontecer e eu morrer, por favor, faça o mesmo. O bonjesuense Paulo Moreira era enfermeiro, foi atingido por um morteiro, na porta do Hospital, em Porretta Terme, juntamente com mais vinte e um companheiros, sendo dois brasileiros, dezoito americanos e dois italianos. O Nilo recebendo um telefonema de um amigo relatando a morte de seu conterrâneo, pediu que esperassem e  viajou aproximadamente cem quilômetros para ir ao enterro; fotografou e trouxe a fotografia para a sua veneranda mãe, D. Alice. Foi sepultado na 5ª Cruz do Cemitério de Pistóia.
                          Assistiam missas todos os domingos e tinham momentos de descontração.  Jorge Jabor e amigos tocavam violão formando até improvisados conjuntos musicais. Ele era motorista e levou o seu chefe ao Vaticano. Todos se  beneficiaram da bênção do Beatíssimo Padre, Papa Pio XII.
                     O retorno  ao Brasil verificou-se entre 6 de julho e 19 de setembro de 1945, em cinco escalões de embarque. Tornaram-se heróis e voltaram, graças a Deus, bem saudáveis, apesar de muitos mutilados e inúmeros neuróticos de guerra. Outros passaram  anos sepultados no cemitério de Pistóia e suas cinzas foram trazidas para o Brasil e colocadas na cripta do Monumento Nacional aos Mortos da Segunda Guerra Mundial, no aterro da Glória, Flamengo, na cidade do Rio de Janeiro, a 5 de outubro de 1960. Os expedicionários foram agraciados com Medalhas e Diplomas pela habilidade e disciplina no teatro de operações da Itália, e outras condecorações, além de incorporados a Regimentos, licenciados do Serviço Ativo, ingressando na Reserva do Exército Nacional.
                  Em Bom Jesus o LIONS CLUBE e a Prefeitura Municipal, Administração do Prefeito Adílio Teixeira Pimentel, fizeram erigir um Monumento, no Jardim, defronte ao Edifício da Prefeitura, em homenagem aos heróis bonjesuenses ex-combatentes integrantes  da FEB.
                  O Expedicionário Paulo Moreira, 3.º Sargento, enfermeiro, que emprestou seu sangue pela paz mundial, herói nacional, é nome de rua em sua terra natal, e sua família recebeu a Medalha de Campanha, Sangue do Brasil e Cruz de Combate da 2.ª Classe. DESFILARAM   SOB   APLAUSOS  APOTEÓTICOS  OS  SOLDADOS  DO  BRASIL  -  EXCEPCIONAIS  E INDESCRITÍVEIS  AS  VIBRAÇÕES  DO  POVO  DIANTE  DAS  TROPAS  NA  VOLTA  GLORIOSA.

segunda-feira, 6 de julho de 2015

MAURÍCIO CARDOSO FARIA (Publicado no Jornal "O NORTE FLUMINENSE" - 26/06/2015)

MAURÍCIO CARDOSO FARIA
                                                                                       Vera Maria Viana Borges
          
                          Segunda-feira, primeiro de junho, diante do Computador para iniciar estes escritos, resolvo dar uma passadinha pelo FACE e deparo-me com uma foto postada pela nobre e muito digna poetisa Regina Coeli, membro da Academia Itaperunense de Letras onde outro não menos nobre, o acadêmico, Carlos Braga, homenageava o nosso POETA MAIOR - MAURÍCIO CARDOSO FARIA, com data de 29 de maio do corrente ano e, com olhar assustado, perplexo, não querendo acreditar, em lágrimas, pude constatar - IN MEMORIAM. Arrepiei. Gelei. Não pude me conter e desandei a procurar notícias... Na página da ACIL, a notícia difusa, segura, pertinaz e dolorosa  do seu falecimento no dia 29. Alçou o seu “voo”, deixando-nos rico e grandioso legado no final de maio e foi juntar-se ao coro celeste para o encerramento do mês de Maria.
                           Membro efetivo e fundador da Academia Itaperunense de Letras, ocupante da Cadeira 39, que tem como Patrono Nacional o magnânimo escritor Érico Veríssimo e como Patrono Regional o ilustre Ruy Buarque de Nazareth. Bacharel em Direito e Licenciado em Letras Clássicas (português, latim e grego). Pós-graduado em Docência Superior tendo exercido o magistério por muitos anos em Niterói e nos últimos tempos em Itaperuna. Autor de quinze obras de cunho didático e literário, além de muitos e muitos textos publicados em revistas e jornais. Emérito Professor de Português, autor de uma excelente GRAMÁTICA preparatória para vestibulandos.
                          Mais um sonetista parte para a Casa do Pai, agora ele verseja aos pés de DEUS. Enquanto entre nós, ele dizia sobre o Soneto: “Verdadeira obra de artesanato poético, vestindo miragens, sonhos ou visualizações da vida, quando os vates, ao se permearem de inspiração, transpõem o real e o lúdico, para se projetarem no quase maravilhoso. Dizer que a sua forma limita o seu criador, pelos ritmos, pela métrica, pela rima, é desconhecer o domínio possível do poeta sobre o verso. Em verdade parece-nos que a liberdade formal a que tanto aspiram os poetas, é apenas mais uma propositura da arte poética para eles. Mais um caminho. Mais um. O soneto, de fato, não limita formalmente a criação, pois, quando ela é exuberante, avassaladora amolda-se à forma, emergindo da capacidade de o artista libertar-se... mesmo contido.”  Como Maurício Cardoso, sou também apaixonada pelo SONETO (Poesia Clássica devidamente metrificada e rimada, agrupada em dois quartetos e dois tercetos). Num apelo crescente, imploro aos professores de Português: Ensinem Versificação aos seus alunos, não deixem  o Soneto morrer.
                    O Soneto foi constante na trajetória poética do poeta. O ourives da palavra deixou-nos filigranas de rara beleza como no registro que faço a seguir, página 56 do livro “AREIA DE MARÉ BAIXA” (100 sonetos escolhidos): A RESPOSTA/ Quando cansado e rebaixada a fronte,/ já que em cansaço venho ao torvelinho,/ procuro uma oração, subindo ao monte,/ como ensinou o Mestre do Caminho./ Então me integro ao rubro do horizonte,/ quando o poente cresta-se em cadinho,/ a misturar nuances e, defronte,/ prepara para o dia um novo ninho./ E genuflexo eu tento orar a Deus,/ em súplica de rumo aos dias meus/ na prece que Lhe envio em solidão./ Mas me parece ouvir, do monte à encosta,/ a Voz das vozes dando-me a resposta:/ “perdoa e ajuda e estende a tua mão”. Após este esplendoroso texto ele deixou a seguinte epígrafe: “Crer é cambiar-se nas cores do arco-íris, como em palheta do Pintor Maior.” Um esteta autêntico que buscava Beleza e Perfeição em cada escrito. Com excepcional sensibilidade atribuída aos sábios e poetas era mestre da palavra e a manipulava com extrema elegância e intensa graciosidade, com profundeza nos conceitos e incomum domínio linguístico. Um MESTRE. Sua dedicação, sua cortesia, seu trato com o semelhante era algo edificante. Sua lembrança permanecerá, pois nem mesmo a morte pode calar o canto do poeta, ficará indelével em nossos corações. Sua obra não se dissolverá, pelo contrário deitará rebentos e desenvolver-se-á em novas gerações produzindo muitos frutos. Deleite-se, caro leitor, com seus maviosos versos:
SONETO EM PRECE
Senhor, a madrugada é o meu missal,
os pássaros as vozes de um coral
de cantochões nas folhas que farfalham
às vibrações etéreas que agasalham.

Aqui oro consciente, - anseio o sal
da terra ser, entoo os hinos - mal
eu me concentro meus sentidos falham,
quedo-me ao chão e as minhas mãos se talham.

Ó Mestre, eu não me queixo dos abrolhos,
de me lanhar o rosto, desta festa
de dor e angústia a salobrar meus olhos.

Eu só quisera orientar-me, ó Luz,
pela coroa que te fere a testa,
pelo perdão que deste numa cruz.


          Irrepreensível modelo, este amado Amigo-Poeta. MAURÍCIO CARDOSO FARIA! Nome que soa como uma suave canção,  e que  foi e sempre será um perfeito, belo e inigualável POEMA!  Descanse em paz, meu tão estimado poeta!!!

sexta-feira, 12 de junho de 2015

ÉS SOL, QUERIDO! ( Página do meu Livro "DE-VERAS... DI-VERSOS...")

             


              Estávamos com doze e quinze anos respectivamente. A 26 de agosto de 1956 nos encontramos e iniciamos o namoro. No ano seguinte, no dia 12 de junho de 1957, o nosso primeiro DIA DOS NAMORADOS, hoje comemorado pela quinquagésima oitava vez...

quarta-feira, 3 de junho de 2015

OS BORGES MOVIMENTARAM A BARRA (Publicado no Jornal "O NORTE FLUMINENSE" - 18 de maio de 2015)

OS BORGES MOVIMENTARAM A BARRA

                                                              Vera Maria Viana Borges
                 
                         De olhos fixos num passado longínquo deparamo-nos com o jovem casal Antônio José Borges e Bárbara Roza Teixeira, os primeiros fazendeiros da Barra, vindo ocupar este território. Viam crescer a numerosa prole em meio à fartura proveniente de seu trabalho na terra. Providenciaram alguém para que ensinasse leitura, contas, conhecimentos gerais. O primeiro professor foi João Samarão, vindo da região do Rio Doce. Fixou residência na Barra onde dava aulas particulares e ainda percorria a região dando aulas nas fazendas. O segundo professor Joaquim Teixeira de Siqueira Magalhães que fora educado, no Seminário de Mariana-MG, era professor de letras e de música. Fundou em sua fazenda uma banda de música com 20 participantes, denominada Banda Quinca Magalhães. Seu filho Tatão Magalhães é o autor do belíssimo dobrado - “TEIXEIRA BORGES”. Posteriormente a grande educadora D. Olga Ebedinger e não podemos olvidar a queridíssima mestra Zandir Oliveira Fitaroni, abnegada que lecionava à noite em sua casa à luz de lamparina. Como Deputado e Prefeito de Bom Jesus, o dileto filho José de Oliveira Borges muito contribuiu para a educação de seus conterrâneos lutando pela criação da Escola  Francisco Borges Sobrinho onde por anos a fio esteve à frente, a nobre, doce e talentosa Professora Noêmia Teixeira Borges.  Meu marido foi aluno de Dona Noêmia, vinha do Sítio BOM RETIRO galopando no cavalo Castanho e sempre era advertido pelo Senhor Elias Moraes Borges para que não corresse tanto. 
                Passou o tempo e Bárbara Teixeira dos Reis  herdou as terras. Muito religiosa, vinha em seu cavalo “Balão Branco” a Bom Jesus estar com o Padre Mello para encomendar missas para a comunidade. Eram realizadas em sua residência ao lado de onde hoje é a Igreja e ali  também faziam novenas e orações, fatos estes presenciados pelo grande líder barrense Jarbas Teixeira Borges. Ela doou o terreno para a construção da Igreja e por ser muito devota de Santa Luzia, a Santa protetora dos olhos tornou-se a padroeira do lugar. Loteou e vendeu os terrenos a particulares. A primeira casa construída foi de Antônio Teixeira Borges.
                  Após a ponte sobre o Pirapetinga, na Fazenda da Cachoeira do Itabapoana, residiam o Senhor Manoel Vieira Seródio e Dona Maria Frias Seródio. Com o falecimento do casal, parte da Fazenda foi herdada pelo Senhor Oliveiro Seródio casado com D. Nenzinha, Maria José Teixeira Borges, progenitores do médico e festejado Poeta Dr. Ayrthon Borges Seródio. Foram eles os doadores do terreno para o Cemitério do hoje 7º Distrito de Bom Jesus do Itabapoana. 
                  Elias Moraes Borges, o Liá e sua esposa Morena, nossos primos e diletos padrinhos de casamento, acolhiam os tropeiros e carreiros com muita simpatia. Arranchavam-se em sua propriedade, onde soltavam os animais e pernoitavam. Os Borges movimentavam o povoado. Hamilton Borges teve uma Loja de Tecidos. O Djalma Borges, farmacêutico que atendia a toda a região,  ainda à noite, muito cortês, permanecia na Farmácia onde as famílias se reuniam para um dedo de prosa. Lembro-me do Bar do Francisco Teixeira Magalhães, parada certa do ônibus da minha querida Rosal, onde se saboreava picolés, refrigerantes e pastéis de queijo ou de palmito com carne moída, quentinhos, fritos na hora por sua esposa D. Geralda. Também ali foi sempre  ponto de encontro dos Borges, após o futebol, após as ladainhas ou quaisquer outros eventos. E eles digeriam ali os acontecimentos mais recentes.O primeiro Rádio também foi de um Borges. Chegou o rádio com a pilha maior que o próprio aparelho receptor e todos se reuniam na casa do Senhor Antuninho Borges para ouvir músicas, novelas, as divertidas propagandas e as notícias, até a pilha esquentar, porque quando esquentava começava a chiar acabando a festa.
                    Messias Borges Ribeiro, nascido em 1889, desde criança fazia manteiga na garrafa e assim fez por anos a fio. Com seu falecimento no ano de 1945 seus filhos continuaram fazendo a Manteiga Ribeiro. Em 1947, o filho mais novo Antônio José Borges, assumiu o negócio, adquirindo uma desnatadeira.  Com a criação da Cavil (Cooperativa Agrária Vale do Itabapoana), um de seus irmãos, o Francisco Borges dos Reis foi convidado para trabalhar na referida Cooperativa, confeccionando a manteiga da mesma forma que fazia na “Manteiga Ribeiro”, resultando no deliciosíssimo produto que até hoje faz tanto sucesso, tendo conquistado o prêmio de “Melhor Qualidade de Manteiga da América Latina” no ano de 1990. E não para por aí o dinamismo do Antônio, caçula da Malica. A Fábrica de Doces produzia doce de leite, goiabada, marmelada e mariola entre os anos de 1952 e 1958. O marmelo era fornecido por uma empresa de doces de Leopoldina que entregava a polpa em todo o norte fluminense. No período de 1952 a 1962 era ele, Antônio, quem fornecia a iluminação para a vila e moradores, através da Usina Santo Antônio. A energia era gerada pelo Córrego Pirapetinga. Em 1964, a Granja “A Carijó”, a todo vapor tinha entre pintos, frangos e galinhas, 1200 aves, produzindo em média 500 ovos por dia. A Barra ainda contava com uma Olaria com grande produção de tijolos e telhas. 
              O Folclore riquíssimo era destacado pelas Folias de Reis, pelo Caxambu, pelo Boi-Pintadinho e pelas Festas Juninas dos deliciosos pés de moleque, das broas, dos balões, busca-pés, das quadrilhas, do casamento do Jeca, com um bom sanfoneiro ao redor de grandes fogueiras. 
                 Os meios de transporte a princípio eram as tropas, cavalos, carroças, carros-de-bois e posteriormente a Viação G. Figueiredo & Cia, seguida da AutoViação Rosal, hoje a Empresa Viação Santo Antônio. 
                Para o belo artesanato, as linhas eram fiadas pelas próprias artesãs que enrolavam o algodão para fazer os fios, ou elas usavam o barbante que fechava os sacos de açúcar. E surgiam das mãos habilidosas as mais lindas pérolas, obras de arte em crochê, frivolité, tricô; além do bordado em richelieu, do fuxico, e das belíssimas colchas de retalhos.
           No futebol, a União Barrense, vasto acervo de craques que alegravam as tardes domingueiras. Fundada em 18 de agosto de 1916 por Joaquim Teixeira Borges e Manoel Bonifácio Alves, o Nenzinho Carreiro. Faz parte da Liga de Desportos de Bom Jesus. Tem sede própria e o terreno para sua construção foi doado pelo Dr. Francisco Ferreira de Moraes. Atualmente conta com o entusiasmo e eficiência do administrador Manoel Florêncio da Rosa, outro Nenzinho e do Embaixador dos Borges na Barra, o ex-vereador Jarbas Teixeira Borges.
                   Maria Cristina Borges, filha do saudoso “Antônio da Malica”, tem se movimentado organizando confraternizações entre os membros da Família e já é sucesso o “CAFÉ COM PARENTE” que vem robustecendo a união entre parentes e afins.
              Os Borges continuam movimentando a BARRA, assim como o nosso amado Município, logradouros diversos do  Brasil e até Portugal onde têm buscado novos parentes, desenrolando e resgatando a História da tradicional Família.

sexta-feira, 1 de maio de 2015

OS BORGES E EU (Publicado no JORNAL "O NORTE FLUMINENSE" - 23 de abril de 2015)

OS BORGES E EU
                                                                                      Vera Maria Viana Borges
                 A História depositada no repositório fiel da memória, aflora em lembranças e podemos revivê-la em flashes de doces recordações. Celebrar o amor, a fraternidade, é sinal da Presença de Deus, sinal de carinho, fidelidade, renúncias e muitas alegrias por anos afora partilhando a graça e a beleza de se ter uma família, de sermos caminhantes de mãos dadas em busca de um mesmo destino. A minha ligação com os Borges aconteceu na infância quando Anacleto José Borges consorciando-se com D. Elzira em suas segundas núpcias, foi se estabelecer em Rosal, minha adorada terra. Muito simpático, tinha uma venda e se tornou amigo de todos da vila. Não me lembro dele lá, eu devia ser bem novinha mas diziam que ele sempre brincava: “eu tenho um neto que vou casar com esta menininha.” Depois, ele veio morar em Bom Jesus onde faleceu em 1953. Soube muito dele por minha mãe, que sempre fazia menção às suas histórias.
       Com dez anos, mudamo-nos para Bom Jesus. Visitamos o Calvário e posteriormente fomos ao Cemitério. Vendo a foto do Senhor Anacleto em um dos túmulos, mamãe parou para fazer orações por sua alma, e eu, curiosa subi na calçadinha à volta da sepultura de granito preto para ler o que se registrava na lápide, ao descer bati o joelho direito na quina da dita calçada o que ocasionou profundo corte. Ainda guardo a cicatriz, fui marcada ali pelos Borges. Não conhecíamos seus familiares. Quis o BOM DEUS nos aproximar e aos doze anos conheci José Roberto, neto do Senhor Anacleto. No soneto que segue, página 07 do meu livro “TRILHAS POÉTICAS”, narro a história do belo amor que nos uniu: Nós, aos doze e quinze anos, desde a infância,/Unimo-nos em bom, forte ideal,/Enamorados, firmes, com constância,/Julgamos nosso amor ser imortal./Do caminhar ficou suave fragrância/De rosas do mais belo roseiral,/Amamo-nos em toda circunstância,/Na calmaria e até no vendaval./O antigo afeto, bem aconchegante,/À proporção que o tempo foi passando,/Mais e mais nos unia a cada instante./Não haverá mortal que apaixonando/Possa amar a tal ponto que suplante,/O nosso amor que vai se renovando.
            Bolivar Teixeita Borges, meu sogro, austero homem de princípios, bom esposo, pai sensível, avô dedicado, amante de uma boa prosa, gostava de contar os casos de antanho, as histórias vividas na primeira quadra de sua vida. Relatava e eu ávida, ouvia atentamente, inclusive registrando em dezenas de páginas e até mesmo em gravações, que resultaram em parte do meu livro  intitulado “Das Brumas do Passado”. 
             Mergulhando nos vórtices do tempo deparamo-nos com os Borges oriundos de Portugal, aportando nas Terras de Santa Cruz, este Brasil alvissareiro e belo que tanto nos seduz. Fixaram-se em São Paulo, Minas Gerais e Goiás.  Francisco José Borges, o grande patriarca ficou em Uberaba-MG. Resolveu adquirir terras em Goiás e para lá se dirigiu com  agregados e pertences. A tropa viajava longas distâncias, cerca de 18 a 20 Km por dia. Após meses vislumbrou o encantado sonho, a chegada juntamente com a mulher e o único filho, Antônio José Borges. Cismado, começa a observar a região onde encontrou uma população “papuda”. Perguntou a um escravo o porquê de tantos “papos” e ele prontamente lhe respondeu: Nhonhô, aqui quem não tem papo é aleijado. Ele parecendo ver “papo” até nos paus, juntou a família com tropa e tudo e retornou  a Minas Gerais, desta feita, para a localidade de Dona Euzébia. Ficando viúvo, Francisco José Borges (com apenas um filho, Antônio José Borges,  chamado pelos íntimos de Borginho) contrai segundas núpcias com Anna Roza Teixeira (filha de Francisco Teixeira de Siqueira e D. Felicíssima) advinda de dois casamentos, tendo duas filhas do primeiro matrimônio e uma filha do segundo, Bárbara Roza Teixeira.
         Após o falecimento de Francisco Teixeira de Siqueira, pai de Anna Roza, ocorrido em 03 de dezembro de 1855, dez de seus quatorze filhos vieram aqui para  estas distantes plagas, atraídos pela fama das terras. Nessa época trouxeram as relíquias da Coroa do Divino Espírito Santo. Dentre eles estava o Patriarca Francisco José Borges e sua esposa Anna Roza Teixeira.Vendendo a Fazenda em Minas aqui chegaram em 1856, adquirindo terras do Alferes Francisco da Silva Pinto. Francisco José Borges instalou-se na Braúna, tomando posse de cerca de 2000 alqueires, compreendidos da Vertente do Arraial Novo, Serônia, Sacramento, Fazenda do Leite, atualmente Pavão, Braúna, até mais ou menos 100 metros após a Ponte da Lagartixa.
            Borginho, filho de Francisco estava com 15 anos e Bárbara filha de Anna Roza contava apenas 12 anos. Seus pais autorizaram o enlace das crianças Borginho e Bárbara, oferecendo-lhes o dote de 1000 alqueires, e o tão jovem casal veio para  a Barra do Pirapetinga. Os primeiros fazendeiros da Barra, Borginho e Barbinha, como eram carinhosamente chamados foram abençoados com os seguintes filhos: Messias Borges Ribeiro, Minervina Petronilha Borges, mais conhecida como Vivina,  Antônio Borges Ribeiro, Maria Borges Ribeiro, mais conhecida como Neném, Jovita Umbelina Teixeira, Francisco Borges Sobrinho, Tertuliano Borges Ribeiro e Lília Borges Ribeiro. Somente a Lília não deixou descendentes.
        A esta época Francisco José Borges tinha o filho Borginho do primeiro matrimônio e já mais dezoito filhos do segundo, sendo que dos dezoito, quatro, um homem e três mulheres casaram-se em Dona Euzébia. Com a morte da esposa Anna Roza, mais uma vez viúvo, inconformado e só, resolveu ir visitar os familiares em Minas Gerais. Indo a cavalo, cansado e sorumbático, ao passar por Patrocínio do Muriaé, viu uma donzela lavando roupas num córrego, aproximou-se e pediu-lhe água. Ela o convidou para entrar e serviu-lhe também um cafezinho. Conversaram e ato contínuo ele a pediu em casamento. Deixou o casório tratado para daí a trinta dias. Francisco José Borges e Maria Carolina Borges já vieram casados e desta união nasceram: Anacleto José Borges, Ernesto José Borges e Messias José Borges. Ao todo teve vinte e dois filhos. Parece que ele queria mesmo povoar a localidade. Seus filhos iam se casando e se multiplicando, os Borges foram formando novas famílias, agregando Reis, Teixeira, Magalhães, Alves, Viana, Moraes e uniram-se a muitas e muitas outras famílias continuando o ciclo da vida.
          Anacleto José Borges casou-se com Maria Leopoldina Teixeira aos 19 de fevereiro de 1886. Um de seus filhos, Bolivar Teixeira Borges no dia 22 de julho de 1933, desposou Leonor Alves Borges (cerimônia realizada pelo Padre José Jardim de São Pedro do Itabapoana, pois Padre Mello estava adoentado). Tiveram três filhos: Maria Apparecida, Eliézer e José Roberto. José Roberto e eu nos casamos em1970. Deus nos abençoou com Sávio, nosso dileto filho e com a querida netinha Helena.
             Os Borges foram construindo a história da Barra, uma Barra de gente simples, mas de famílias extremamente unidas, nas quais sempre reinou ambiente de princípios morais e religiosos muito sólidos, demonstrando nas atitudes boa formação e riqueza interior.