quinta-feira, 6 de julho de 2017

O APÓSTOLO DO BRASIL (Publicado no Jornal "O NORTE FLUMINENSE" - 30 de junho de 2017)

O APÓSTOLO DO BRASIL
                                                                                            Vera Maria Viana Borges
            Os dias avançam e praticamente meio ano já se foi. Chegou junho, mês consagrado ao SAGRADO CORAÇÃO DE JESUS. Mês de tantos santos e de tantas festas, Santo Antônio, São João, São Pedro, São Paulo e dentre outros São José de Anchieta, comemorado no dia nove, um padre jesuíta espanhol, santo da Igreja Católica e um dos fundadores da cidade brasileira de São Paulo. Beatificado em 1980 pelo Papa João Paulo II e canonizado em 2014 pelo Papa Francisco, é conhecido como o Apóstolo do Brasil, por ter sido um dos pioneiros na introdução do cristianismo no país. Em abril de 2015 foi declarado copadroeiro do Brasil na 53ª Assembleia Geral da CNBB. Foi o primeiro dramaturgo, o primeiro gramático e o primeiro poeta nascido nas Ilhas Canárias. Foi o autor da primeira gramática da língua tupi, e um dos primeiros autores da literatura brasileira, para a qual compôs inúmeras peças teatrais e poemas de teor religioso e uma epopeia. É o patrono da cadeira de número um da Academia Brasileira de Música e Patrono da Academia Marial de Aparecida/SP, instituição idealizada e estruturada pelo Cônego João Correia Machado. Foi criada por Decreto do então Arcebispo de Aparecida, Dom Geraldo Maria de Moraes Penido, em 16 de julho de 1985, por ocasião do XI Congresso Eucarístico Nacional. Foi instalada no dia 21 de dezembro do mesmo ano. Em 6 de maio de 1985, o Bem-aventurado Padre José de Anchieta, primeiro escritor de Nossa Senhora no Brasil, foi declarado, por Decreto Pontifício, Patrono da Academia Marial. Em 1997 foi comemorado o IV Centenário de sua morte e mais vinte anos já se passaram.
              O Padre José de Anchieta nasceu a 19 de março de 1534 em La Laguna de Tenerife, Ilhas Canárias. Aos 17 anos ingressou na Companhia de Jesus, recém-fundada por Santo Inácio de Loyola. Chegou ao Brasil em 1553, na comitiva do segundo Governador-Geral, D. Duarte da Costa.  Em janeiro de 1554, foi a Piratininga (berço da futura cidade de São Paulo), para ser o primeiro mestre do Colégio São Paulo. Aos 25 anos tornou-se Reitor do Colégio de São Vicente e aos 43, Provincial da Ordem. Onze anos mais tarde transferiu-se para o Espírito Santo.
            Apreciando a figura de Anchieta, deve-se considerar dois aspectos: a obra social de longa existência benemérita e a literária, não só de poeta, mas também de dramaturgo.
           Falava e entendia o “tupi”, chegando a escrever a “Arte de Gramática da Língua Mais falada na Costa do Brasil” (1595). Acompanhou o Padre Manuel da Nóbrega na missão pacificadora à Praia de Iperoig, hoje Ubatuba-São Paulo. A paz foi firmada; a essa época compôs o seu Poema à Virgem Maria, escrito pelo Padre nas areias da Praia de Iperoig, guardando-o de memória para passá-lo para o papel em São Vicente.
          Para a tarefa missionária valia-se da Poesia e do Teatro, em vez da teoria preferia a prática, encenada em palco, difundida através da Poesia. O poeta e dramaturgo é tido como o iniciador, o fundador da literatura brasileira.
         Seus autos visavam despertar e conquistar o índio pelos sentidos, usando espetáculos cênicos, a música e o canto, nos adros das igrejas, nas aldeias, nas cidades, nos colégios, em palcos armados com estrados, onde contrastavam-se o Bem e o Mal, Deus e o Diabo, O Céu e a Terra, a Vida e a Morte, o Prêmio e o Castigo, o Pecado e a Santidade, a Salvação e a Condenação. Iniciou também a poesia lírica brasileira. Suas principais obras são: Ao Santíssimo Sacramento, A Santa Inês e o longo Poema, escrito em latim “ Bem-aventurada virgem mãe de Deus-Maria” e “Cartas” (edição Da Academia Brasileira de Letras e comentários de Afrânio Coutinho),com estilo agradável e preciosas informações.
           Em janeiro de 1565 desembarcou na Praia Vermelha, junto ao Pão de Açúcar, daí seguiu para Bahia e Pernambuco e depois para o Espírito Santo.
              No dia 15 de agosto de 1579 recebeu a imagem de Nossa Senhora da Assunção em Rerigtiba, atual cidade de Anchieta-ES com a apresentação do auto “Dia da Assunção” de sua autoria.
                 Em 1585 fundou a aldeia de Guaraparim, sob a proteção de Nossa Senhora da Conceição, escrevendo para a inauguração o mais expressivo auto tupi- “A Alma de Pirataraka”.
               Muitas foram as comunidades fundadas por ele no Espírito Santo, dentre elas destacam-se- São João de Carapina (1562); Nova Almeida, anteriormente denominada Reis Magos (1569); Rerigtiba, hoje Anchieta (1579) e Nossa Senhora da Conceição de Guaraparim, atualmente Guarapari (1585).
             Aos nove de junho de 1597 faleceu na aldeia de Rerigtiba, aos sessenta e três anos, sendo que quarenta e quatro deles, vividos no Brasil. Seu corpo foi levado em ombros indígenas, por quatorze léguas em três dias de caminhada, e o corpo do Santo Missionário chegou à Vila de Vitória, inalterado e conta-se que ninguém sentiu cansaço.
             Foi sepultado na Igreja de São Tiago anexa ao Colégio dos Jesuítas, atual Palácio do Governo. Seus ossos foram trasladados em parte para o Colégio da Bahia e para Roma, no ano de 1611 e em 1617 foram iniciados os processos de Beatificação e Canonização. Em 1736 foi declarado “Venerável” pelas virtudes exercitadas em grau heróico e em 1980 foi Beatificado o defensor dos Índios, o Santo Missionário e Apóstolo do Brasil. Após um processo de canonização de mais de 400 anos, o decreto foi assinado a 3 de abril de 2014. Em 24 de abril realizou-se a cerimônia de Ação de Graças, presidida pelo Papa, realizada na Igreja de Santo Inácio de Loyola de Roma. 
              No mês de junho uma multidão participa da caminhada festiva promovida pela Associação dos Amigos dos Passos de Anchieta.  A sua disposição em caminhar o levava a percorrer, duas vezes por mês, a trilha litorânea entre a então Rerigtiba (atual Anchieta) e a ilha de Vitória, com pequenas paradas para pregação e repouso nas localidades de Guarapari, Setiba, Ponta da Fruta e Barra do Jucu. Modernamente, esse percurso, com cerca de 105 quilômetros, vem sendo percorrido a pé por turistas e peregrinos, à semelhança do Caminho de Santiago, na Espanha.
               Vale a pena visitar o Santuário Nacional de São José de Anchieta e o Museu Nacional também em ANCHIETA/ES. Num grande pátio há um busto do Santo sob uma frondosa castanheira. Uma igreja histórica bem conservada, o museu, podendo-se ainda desfrutar de belíssima vista para o mar. Um  passeio histórico, cultural e religioso onde podem ser vistos  objetos relacionados a ele, suas RELÍQUIAS, um pedaço de sua tíbia e a cela onde faleceu. Um lugar agradável, onde se passa a limpo várias páginas da História do Brasil.
                 Em visita ao paradisíaco litoral capixaba, atravessando o Rio Benevente, há um lindo MONUMENTO, uma estátua em bronze, de corpo inteiro, na praia do centro de Anchieta onde se pode reverenciar o Santo Missionário e Apóstolo do Brasil.