terça-feira, 4 de agosto de 2015

MEMÓRIAS DE UM EX-COMBATENTE (Publicado no Jornal "O NORTE FLUMINENSE - 24 de julho de 2015)

MEMÓRIAS DE UM EX-COMBATENTE
                                                                                             Vera Maria Viana Borges
               
                            Na Europa ocorria a maior conflagração da História da Humanidade. Iniciou-se com a invasão da Polônia pela Alemanha hitlerista a 1º de setembro de 1939, prosseguindo na Europa até a capitulação alemã a 7 de maio de 1945 e na Ásia até a rendição do Japão a 2 de setembro de 1945. Da coligação aliada contra a Alemanha, a Itália e o Japão, participaram a França, URSS, EUA, o Reino Unido e outros países, entre eles o Brasil.
                      No Brasil, a reação contra o nazismo, iniciou-se em 1942,  embora limitando-se apenas aos meios intelectuais.  Entre janeiro e maio de 1944, soldados convocados, eram preparados e em julho partia o primeiro escalão, que chegou a Nápoles no mesmo mês. A guerra deixou de ser algo distante para o povo brasileiro. Lenta e insidiosamente chegou às costas do Brasil, destruindo vidas de pacíficos homens de trabalho que nada tinham com a guerra. O Brasil enfrenta a agressão! Dolorosas as despedidas! Famílias dizimadas pela dor, corações que sangravam, gemidos de dor que dilacerava o peito, choros, lágrimas, desespero... Lenços se acenavam em despedida... Familiares, namoradas, vizinhos, amigos, colados aos rádios, na ânsia daqueles terríveis comunicados... Foram com eles a paz de muitos corações, dos pais e irmãos que aqui ficaram em total desolação.
                  De Bom Jesus partiram - Altayr Fraga Campos, Álvaro Borges Barbosa, Boaventura Pedrosa, Cândido Diniz  (Rosal), Clito Soares Barroso, Isaac de Souza (Carabuçu), João Avelino dos Santos, João Soares Pimentel, José Basílio da Silva, Jorge Jabor, Luís Capácia (Rosal), Moacir R. do Carmo, Manoel Zanon, Nestor Queirós, Nilo Escudino, Paulo Moreira, Paulo “Capitulino” Terra, Ricardo Vieira Chaves e Romil Laurindo Neto, bravos soldados, lutadores pela liberdade mundial.
                  Nilo Escudino estava no Exército e não obteve baixa devido às críticas circunstâncias que envolviam o mundo. Todo o contingente ficara de prontidão nos quartéis aguardando os acontecimentos e quando o Brasil decidiu entrar na guerra, já havia  três anos que ele e muitos companheiros estavam lá e ainda ficaram mais 1 ano, 1 mês e vinte dias... Pediram para vir despedir das famílias. Foram concedidos três dias: um para vir, outro para ficar e o terceiro dia para voltar. Alguns não retornaram, foram muitos os desertores. Era frequente ouvir dizer na época: “Ou mato, ou morro”, não nos campos de batalha naturalmente, mas referindo-se a esconderijos em matas e morros... Muitos fugiam dos próprios quartéis, durante a noite. Apelidaram o lugar das fugas, por onde saíam, de “Capitão Pula”.
                   No dia do embarque, o segundo escalão saiu da Vila Militar, em Deodoro, em direção ao Cais do Porto, de trem, em  comboio fechado para que não fossem vistos pelos “Quinta Colunas”, que comunicavam aos inimigos tudo o que se passava. Para entrar no navio foram escoltados por soldados armados de metralhadoras, que formavam um corredor. Permaneceram ancorados por três dias, aguardando ordens. Para o cerimonial de despedidas, esteve presente o Presidente Getúlio Vargas, que assim iniciou o seu pronunciamento: -Brasileiros! Deus vos acompanhe...
                   O navio seguiu escoltado por dois “destróieres”, um de cada lado, um “porta-aviões”, um “submarino”, um “encouraçado” que abria o caminho e  mais navios de pequeno porte. Foram perseguidos por submarino  e ficaram de prontidão aguardando para se atirarem  com botes salva-vidas ao mar, caso o navio fosse torpedeado. Bombas de profundidade foram usadas em defesa deste ataque; tambores eram rolados em rampa nos convés, explodindo a quinhentos metros do navio que fazia  média de 60 milhas por hora. Tremia tudo! Parecia maremoto... Só se via céu e água. Quinze dias e quinze noites de angústia, medo, pavor e tormento. A comida era americana, enlatada, por sinal muito boa. Do Brasil, só banana e laranja.  Às dezoito horas, fechavam o convés e muitos dispensavam o jantar, procurando locais mais frescos, próximos às geladeiras, pois o calor era de matar, chegando a mais de cinquenta graus. Morreram oito na viagem e muitos desceram em padiolas, com pneumonia e outros problemas. Os que morriam, recebiam as honras militares: cantava-se o Hino Nacional, o Coronel homenageava com um discurso e o corpo envolto na Bandeira Nacional era lançado ao mar, por uma rampa, em caixão de tela. 
                    Éber Travassos, de Itaperuna, ficou muito mal durante a viagem, com um furúnculo no peito do pé. Ele era  muito gordo e o calor muito intenso. Com muita febre, insistentemente pedia ao Nilo Escudino que se ele morresse, contasse à sua família o que lhe acontecera. O Nilo, vendo-o realmente numa pior, resolve encorajá-lo: - Realmente acho que você deverá morrer, mas se isto não lhe acontecer e eu morrer, por favor, faça o mesmo. O bonjesuense Paulo Moreira era enfermeiro, foi atingido por um morteiro, na porta do Hospital, em Porretta Terme, juntamente com mais vinte e um companheiros, sendo dois brasileiros, dezoito americanos e dois italianos. O Nilo recebendo um telefonema de um amigo relatando a morte de seu conterrâneo, pediu que esperassem e  viajou aproximadamente cem quilômetros para ir ao enterro; fotografou e trouxe a fotografia para a sua veneranda mãe, D. Alice. Foi sepultado na 5ª Cruz do Cemitério de Pistóia.
                          Assistiam missas todos os domingos e tinham momentos de descontração.  Jorge Jabor e amigos tocavam violão formando até improvisados conjuntos musicais. Ele era motorista e levou o seu chefe ao Vaticano. Todos se  beneficiaram da bênção do Beatíssimo Padre, Papa Pio XII.
                     O retorno  ao Brasil verificou-se entre 6 de julho e 19 de setembro de 1945, em cinco escalões de embarque. Tornaram-se heróis e voltaram, graças a Deus, bem saudáveis, apesar de muitos mutilados e inúmeros neuróticos de guerra. Outros passaram  anos sepultados no cemitério de Pistóia e suas cinzas foram trazidas para o Brasil e colocadas na cripta do Monumento Nacional aos Mortos da Segunda Guerra Mundial, no aterro da Glória, Flamengo, na cidade do Rio de Janeiro, a 5 de outubro de 1960. Os expedicionários foram agraciados com Medalhas e Diplomas pela habilidade e disciplina no teatro de operações da Itália, e outras condecorações, além de incorporados a Regimentos, licenciados do Serviço Ativo, ingressando na Reserva do Exército Nacional.
                  Em Bom Jesus o LIONS CLUBE e a Prefeitura Municipal, Administração do Prefeito Adílio Teixeira Pimentel, fizeram erigir um Monumento, no Jardim, defronte ao Edifício da Prefeitura, em homenagem aos heróis bonjesuenses ex-combatentes integrantes  da FEB.
                  O Expedicionário Paulo Moreira, 3.º Sargento, enfermeiro, que emprestou seu sangue pela paz mundial, herói nacional, é nome de rua em sua terra natal, e sua família recebeu a Medalha de Campanha, Sangue do Brasil e Cruz de Combate da 2.ª Classe. DESFILARAM   SOB   APLAUSOS  APOTEÓTICOS  OS  SOLDADOS  DO  BRASIL  -  EXCEPCIONAIS  E INDESCRITÍVEIS  AS  VIBRAÇÕES  DO  POVO  DIANTE  DAS  TROPAS  NA  VOLTA  GLORIOSA.

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